And you can't smoke in any of this coffee places...I'm pretty sure coffee was invented by people who were smoking anyways. And they just wanted to invent something so they can stay up late and SMOKE FUCKIN' MORE! That's my theory. Just ask me or Columbo, he'll back me up on this one.» Denis Leary

Thursday, June 30, 2011

julguei sentir-me rico

Dito isto, talvez fique também explicado porque é que, por exemplo, uma certa ocasião, um dia em que recebi de manhã o vale de correio do meu pai, julguei sentir-me rico e ter uma alma apodrecida e capitalista e fui deliberadamente ao Café La Rotonde beber champanhe e ali, sem que naturalmente ninguém se pudesse aperceber disso, dediquei-me a desforrar-me interiormente e a flartar com a minha mente e a ir trasformando-a numa mente monstruosa – hoje vejo-o com muita nitidez – tentando não desaproveitar todas as possibilidades de ser um grande cabrão, que eu dizia para comigo que podia ser, se quisesse.


Enrique Vila-Matas

Il caffè della Peppina

Sunday, February 13, 2011

cheiro a café

Gosto do cheiro a café à porta das pastelarias. E dos cafés das vilas da província barulhentos nos domingos à tarde.



Manuel Hermínio Monteiro
 
 

coffee time

Friday, January 07, 2011

SÍTIO SORVIDO

Passada a porta passado oceano e firmamento
é o café que surge, a experimentar
quem vem de fora.

Inúmeras chávenas
menores despojos deixa a peste

Enquanto a mesa redonda põe
a minha doçura à prova

a chávena combativa
objecto a ferver
no fundo que porcaria
esconde?

É que nem tudo nem todos
são visíveis deste sítio
quer seja o oceano a porta
ou o purgatório

Luiza Neto Jorge

Thursday, October 28, 2010

Apetece me extraordinariamente beber um café.

Apetece me extraordinariamente beber um café.
De acordo.
Chegaram a uma localidade chamada Storta, onde havia uma leitaria rústica com um pequeno pórtico, sob o qual, ao fundo na escuridão de uma sala, se divisava o brilho da máquina do café. Guido foi à caixa pagar e, fazendo um sinal a Cesare, segredou lhe:
Gostaria que me fizesse um favor: trocamos as raparigas;, você fica com Lole e eu com Valéria. Não se importa?
Cesare surpreendido, mas sem sombra de despeito, respondeu:
Confesso que julgava ter feito bem. Você tinha me dito que gostava das louras!...
Mas aquela é uma morena oxigenada observou Guido em tom de gracejo.
Está bem concordou Cesare. Eu fico com Lole.
Proferiu estas palavras com o ar de quem acha estranha a proposta, mas, pessoalmente, nada tem a objectar. Com efeito, ao dirigirem se para o carro, depois de terem bebido o café, disse com indiferente moleza, sem se voltar:
Raparigas, agora muda se de parceiros. Lole vai à frente comigo e Valéria vai atrás com Guido.


Alberto Moravia


Friday, October 01, 2010

Hector's

Sairam do autocarro da Greyhound na 50th Street, dobraram a esquina à procura de um sítio para comer e entraram logo no Hector's e, desde então, a cafetaria Hector's nunca mais deixou de ser para Dean um importante simbolo de Nova Iorque.


Jack Kerouac


Thursday, May 20, 2010

A cidade tem uns cafés fenomenais, com umas gordas que levam o cão e o marido a comer strudel.

Julio Cortázar

Thursday, January 07, 2010

Mas a história nunca é fácil, pensa ele...

Um homem aproxima uma chávena de café da cara, inclina-a para a boca. É histórico, pensa. Ele coça a cabeça: outro acontecimento histórico. Devia era descansar, está a produzir uma quantidade imensa de história logo de manhã.
Credo, agora está a barrar torradas com manteiga, outro bocado de história a fazer-se.
Ele espanta-se por ter-lhe sido destinado ser tão histórico. Outros provavelmente não o têm, pensa, é, ao fim e ao cabo, um talento.
Ele pensa que um dos seus atacadores precisa de ser apertado. Ah bom, mais um acontecimento histórico importante que está para acontecer. Não o pode evitar. Estará talvez a ocupar uma faixa demasiado grande de história? Mas tem que viver, não tem? As torradas necessitam de manteiga e ele não pode andar por aí com um dos atacadores desapertados, pois não?
É certamente verdade, que quando escreverem todo o século XX será principalmente acerca dele. É a forma como o bolo se esmigalha - ah, aí está uma frase que será citada nos séculos vindouros.
Convencido? Um pouco; como pode evitá-lo observado por todos os olhos ainda por nascer do futuro?
Oh, oh, sente outro acontecimento histórico a chegar... Ah, aí está, uma chávena de café a aproximar-se da cara na ponta do seu braço. Se conseguissem registar isso em filme, quanta importância não teria para o futuro.
Bolas, derramou-o todo no colo. Um desses acidentes históricos que influenciarão os próximos mil anos; imprevisível e até muito desconfortável... Mas a história nunca é fácil, pensa ele...

Russell Edson


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Thursday, December 10, 2009

Café Pombo

“Necesito Café en que reunirme en día fijo con los míos. Café por decirlo así
‘propio’ en que tomar confianza con un espacio ajeno pero cerrado a través de
los muchos años que pienso vivir dedicado a la faena literaria”.


ramon gomez de la serna

Thursday, November 19, 2009

Café Central

Todas as manhãs o dr. Malcata subia da Praça Velha, onde estava o escritório do filho solicitador, para ir tomar café à Central. Na primeira mesa do lado direito sentavam-se os influentes do Partido Democrático, separados duas mesas do núcleo mais reduzido do Partido Evolucionista. Tinham alinhado juntos até há pouco tempo numa coligação de conveniência, a União Sagrada, mas o divórcio fizera-se ainda antes do golpe do novo presidente e evitavam cumprimentar-se, forçando o empregado a consternadas manobras para os atender sem quebra do respeito devido a cada uma das facções.(...)As três mesas do fundo davam à justa para nelas se acomodarem os unionistas, os monárquicos e os incondicionais do novo presidente, que cresciam de número a cada arenga com que ele fulminava a nação.(...) Quezílias pessoais, quando não velhos ódios de famílias, entrecruzavam-se nos jogos politicos da Central.


Fernando Assis Pacheco

Thursday, November 12, 2009

clientes habituais

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«IN OUR TIME»

- Um café, se faz favor - disse a jovem mulher.
- E para o senhor? - perguntou a empregada.
- Deixe-me ver - disse o homem. Olhou bem para a empregada, que lhe sorriu docemente, de um modo quase infantil.
- Não se importa que eu peça uma coisa diferente?
- Claro que não, diga à vontade. Embora nós aqui fora não tenhamos grande escolha.
- Eu também não estou a pensar em nenhuma iguaria.
- Oiça lá - inclinou-se a jovem mulher para ele. - Se mais uma vez não consegue comportar-se, vou-me embora.
De duas em duas, ou de três em três semanas, iam tomar café, sempre no mesmo pequeno bar de Buda, perto da estação de eléctrico, por baixo dos castanheiros.
- Olhe Alizka, você pediu café. Deixe que eu também mande vir o que me apetece.
Virou-se para a empregada.
- O meu problema é que não me lembro, de repente, do nome daquilo que queria pedir.É assim um líquido escuro.
- É uma bebida alcoólica?
-Não, não. Se me lembro bem, trouxeram-mo num copo de vidro. E também me lembro que estava quase a ferver. Portanto, não era uma bebida alcoólica.
- Receio que não a tenhamos.
- Nem posso acreditar - disse o homem. - Não será possível perguntar à sua camarada gerente?
- Sim, com certeza. Mas digo-lhe já que eu trabalho aqui há cinco anos - disse a menina, que foi lá dentro à pressa.
- Estou a ficar farta do seu comportamento - disse a jovem mulher irritada. Ela não gostava de dar nas vistas. No autocarro virava-se sempre para a janela. Nem sequer tinha coragem para trocar um par de sapatos se estes lhe apertassem os pés. - Se não acaba com isso, vou para casa.
- Ainda nem sequer me contou da Jugoslávia.
- Nesta disposição nem consigo falar-lhe nisso.
A empregada aproximou-se sorrindo.
- A camarada gerente pergunta se a bebida não era castanho-
-clara.
- Não, senhora. Era quase preta.
- E onde foi que a tomou pela última vez?
- No Gerbeaud.
- Já receávamos! - riu-se a empregada. - Pois, então, a Gerbeaud é uma pastelaria de luxo, de primeira classe. Mas nós, como o senhor vê na placa, somos uma pastelaria de segunda classe.
- Espere aí! - disse o homem. - Agora estou a lembrar-me que com aquilo também me deram uma colher pequena. E mais uma coisa. No pires, uns pequenos cubos brancos.
- Cubos? - olhou a empregada para ele. E depois desatou-se a rir. - Há cinco anos que estou cá, mas nunca houve um pedido assim. Cubos! - riu-se novamente.
- Não se poderia perguntar à camarada gerente?
A empregada foi, mas à porta olhou para trás, pôs a mão na boca e riu-se.
- Só fica contente quando as pessoas se ocupam de si? - perguntou a jovem mulher furiosa.
- Nem pensar, Alizka. Nem assim fico contente. Bom, mas como é o tal Bled?
- Não finja que está interessado pelo Bled. Era melhor dar-se conta do que está a fazer.
A empregada voltou. Atrás dela vinha a gerente: caveirosa, de óculos, com um livro de Hemingway pouco conhecido na mão, intitulado In our time.
- Estou a ver o problema - disse ela, com delicadeza.
- Mas, por favor, não faça caso do assunto - disse o homem.
- Nós gostamos de satisfazer os nossos velhos clientes. De que tipo eram aqueles cubos?
- Se bem me lembro, eram brancos. E de tamanho bastante pequeno.
Estas entreolharam-se. A jovem empregada, que agora não se atreveu a rir, só casquinou baixinho. A gerente, por seu lado, continuava séria.
- É muito aborrecido, mas o que posso fazer? Não temos cubos de nenhum tipo.
- Não é assim tão importante - disse o homem.
- E também não conheço o líquido de que se trata.
- Deixe lá - o homem fez um gesto de desistir com a mão.
- Traga-me também um café.

István Örkény


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Wednesday, October 28, 2009

Não, penso, o mundo que eu queria que recomeçasse a existir em torno
a mim e a Franziska não pode ser o vosso; queria concentrar-me para
pensar um lugar em todos os seu pormenores, um ambiente onde gos-
tasse de me encontrar com Franziska neste momento, por exemplo um
café cheio de espelhos em que se reflictam lustres de cristal e uma or-
questra toque valsas e os acordes dos violinos venham serpentear por
cima das mesinhas de mármore e as chávenas fumeguem e haja pastéis
de nata. Enquanto lá fora, do outro lado dos vidros embaciados, o mundo
cheio de pessoas e de coisas faria sentir a sua presença: a presença do
mundo amigo e hostil, as coisas com que nos alegramos ou contra as
quais nos batemos... penso-o com todas as minhas forças mas já sei que
elas não bastam para fazê-lo existir: o nada é mais forte e ocupou toda
a terra.

Italo Calvino, in "Se numa Noite de Inverno um Viajante"

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Friday, October 23, 2009

I thought I

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saw Liz Taylor, Bob Mitchum in the Backroom of the Commercial South Bank, 1984
Graham Smith

POR VOLTA DOS ANOS 70

A malta pedia a Deus um salão de bilhar e andava à pancada todas as sextas-feiras à noite mesmo no meio da estrada, impedindo o tráfego. Sem facas, armas de fogo ou correntes. Só ao murro. Ninguém estava ali para levar aquilo a sério. Não era como os combates de rua nas grandes cidades. Os bailes em Diligent River atraíam sempre imensa gente e, como nos velhos tempos do El Monte Legion Stadium, por dá cá aquela palha rebentavam violentas brigas entre vilórias rivais. O grande culpado disto tudo era o tédio. Nem empregos nem salões de bilhar, dez gajos para uma miúda que, regra geral, era um coiro, péssimas estações de rádio, só velhos a morrer e bêbados, festas de caridade, um baile por mês onde nem sequer se dançava rock, uma máquina de discos que nunca mudava de repertório, invernos cobertos de neve em que fazia um frio de rachar e verões encobertos. A coisa mais empolgante que podia acontecer era alguém matar um alce ou um urso, mas até isso era muito raro. Foi então que chegaram os americanos. Primeiro a conta-gotas e, depois, uma autêntica enxurrada. Desertores, criminosos, tipos fugidos das cidades que cresciam por toda a parte. Estranhas publicações pornográficas começaram a circular pelas aldeias. Páginas inteiras, às cores, cobertas de pichas e conas, mamas e cus. O cheiro a drogas impregnou a atmosfera como uma brisa marítima. A música de rock and roll vibrou baixinho e acabou por explodir estrondosamente do lado das florestas, abafando o ruído das serras mecânicas. Surgiram cabanas de índios e esquisitas construções em cúpula de cores berrantes. Estandartes com longas fitas esvoaçavam nos campos para grande espanto dos corvos. Monstruosas motas pretas todas cromadas chafurdaram nas picadas. Estampidos de choppers e hogs rugindo através das aldeias de pescadores. Cartazes dos Rolling Stones colocados nas paredes dos celeiros e das igrejas. Raparigas da terra tatuadas em sítios que nunca nos teriam passado pela cabeça. A Polícia Montada foi alertada, mas as coisas já iam demasiado longe. Já não se conseguia distinguir a rapaziada canadiana da americana. Toda a gente a foder e a chupar, a fumar charros, a chutar e a dançar. E, muito ao longe, podia-se ouvir o barulho da América a rachar e a despenhar-se no mar.


Sam Shepard


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