Naquele canto do café, junto aqueles homens, ouvindo os mudos conselhos com que a mesa, o divã, os espelhos e todo aquele ambiente intervinham na tertúlia, compreendi que aquilo de que o meu doente precisava era de voltar ao café. A doença dele tinha sido leve, ao princípio, mas perante a ausência de café fora-se agravando sem cessar, devendo agravar-se até à morte caso ele não voltasse ao café. Movido por essa certeza, mandei-o levantar no dia seguinte, ainda com 39º, e fomos instalar-nos no café. Os amigos receberam-no com efusão e contaram-lhe todas as novidades em atraso. Pouco a pouco, e tal como podemos ver andar, visível e invisivelmente, o ponteiro dos grandes relógios de “olho de boi” dos cafés, assim vi eu curar-se o meu doente, voltando gradualmente ao seu estado normal por artes do maravilhoso sanatório que é o café, por influencia desse cosmético de desconhecida receita que é o café dos cafés, por influência do divã, dos espelhos, das luzes, dos amigos, do empregado e de todos os inimitáveis pormenores do sítio.
Ramón Gómez de la Serna
And you can't smoke in any of this coffee places...I'm pretty sure coffee was invented by people who were smoking anyways. And they just wanted to invent something so they can stay up late and SMOKE FUCKIN' MORE! That's my theory. Just ask me or Columbo, he'll back me up on this one.» Denis Leary
Wednesday, February 20, 2008
Tuesday, February 19, 2008
Friday, January 11, 2008
Cinco Horas
Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!
Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.
(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)
Sobre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...
Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.
Ou acendendo cigarros,
— Pois há um ano que fumo —
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.
(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente)
Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.
É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha idéia persiste
E nunca mais se desloca.
Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...
(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...)
Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.
Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.
— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.
Mário de Sá Carneiro
Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!
Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.
(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)
Sobre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...
Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.
Ou acendendo cigarros,
— Pois há um ano que fumo —
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.
(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente)
Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.
É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha idéia persiste
E nunca mais se desloca.
Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...
(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...)
Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.
Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.
— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.
Mário de Sá Carneiro
Monday, February 19, 2007
Com as primeiras nuvens recolher ao Café. Tomar a mesa de canto, preenchendo o olhar.Ao lado, uma mesa vazia. Cadeiras desencontradas. Uma garrafa despida. Um prato, branco de migalhas, guardanapos consumidos.Tentar adivinhar quem poderia ali ter estado. O tempo que terá deixado, o gosto ou não por tabaco, definir esse rosto pelo rótulo do que bebeu, atribuir-lhe uma idade, um sexo, um perfil, explorar cada detrito na resenha de vestígios.Perceber quanto existe, nesse jogo, de infrutífero. Tanta gente poderia ter-se sentado aí.
João Luís Barreto Guimarães
João Luís Barreto Guimarães
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