AzeitonaO desagrado latente pela tosta-mista que finalmente se mostrou; as acusações infundadas dela; a solução da azeitona proposta por mim e que ela recusou; as minhas mãos no pescoço insolidário do empregado do snack; a minha redenção comovida face ao compadecimento da autoridade; o desejo de voltar aos dias iguais.Juro que ela nunca me tinha dado a entender que não gostava de tosta-mista; nunca mo disse explicitamente e, ao contrário do que tem dito por aí, também nunca mo disse implicitamente: nunca me deu os tais sinais óbvios de enfado crescente que acha que eu teria interpretado se não fosse tão «casmurro e in-sensível».
Casmurro e insensível eu, logo eu; eu que me desdobro em cuidados e atenções, a perguntar-lhe a cada dentada, a cada revolução do seu bolo ali-mentar, se a sua tosta-mista estava boa – «a tua tostinha-mistinha está boa, amor?» – e a encorajar-lhe o apetite e o amor-próprio dizendo que «o dono do snack deve ter um fraquinho por ti, amor» por a tosta-mista dela trazer sem-pre mais queijo e fiambre que a minha: «olha tanto fiambrinho, amor»; eu a enchê-la de cuidados e atenções, a enternecer-me com a luz da uma da tarde reluzindo na manteiga dos seus lábios e ela a cair-me em cima com todo o seu desagrado, com todo o seu desamor, dizendo que «uma vez por outra ainda vá» mas que «assim, ritualmente, religiosamente, todos os sábados acabarmos aqui a comer duas fatias de pão aquecido, entremeadas de queijo e fiambre e besuntadas com manteiga, a empurrá-las goelas abaixo com cerveja», que – e subiu o tom de voz – «acabarmos todos os santos sábados neste maldito snack a almoçar uma estúpida tosta-mista» era demais e estava farta – do snack, da tosta e de mim – e eu que revolvia o meu bolo alimentar tentando posicioná-lo para a deglutição e me debatia com o fiozinho de queijo que me ligava o canto da boca à meia-tosta-mista restante no pratinho, engasguei-me.
Ainda roxo, ainda sôfrego, ainda a tossir os bocadinhos de pão que me tinham ido parar aos pulmões, com a luz da uma da tarde reluzindo certamen-te na manteiga dos meus lábios, argumentei que não tínhamos que ir sempre àquele snack – aliás, fora ela quem o escolhera –, que podíamos variar, ir a outro, ir a outros: havia tantos por ali e nalguns a tosta-mista era servida com uma azeitona por cima, espetada num palito. Ela começou a abanar a cabeça e a dizer que não, «não, não», que «a coisa já não vai lá à custa de azeitonas em-paladas» enquanto eu insistia que sim, «sim, sim», que mesmo não ligando nada a mariquices dessas, a paneleirices do género, a pintelhices afins, e mes-mo achando abusivo o acréscimo de preço da tosta-mista quando azeitonada, era o primeiro a admitir que aquilo lhe dava outra graça, a projectava numa direcção estética diferente e que ela ia ver como eu tinha razão. Mas conti-nuou a abanar a cabeça e a dizer que não, «não, não», que eu não estava a per-ceber nada, que «tu nunca percebes nada», que «a nossa relação se tornara numa tosta-mista com manteiga a mais, gordurosa, irrecuperável», corrigindo a seguir tosta-mista para «tosta-monótona» por achar mais apropriado ao nosso caso, e eu que por precaução mantivera a boca vazia, reincidi nas virtudes da azeitona hasteada naquele território de pão e manteiga, no milagroso colorido que dava às coisas todas – aos carros, às casas, aos jardins municipais: à vida de uma maneira geral – e ela a abanar cada vez mais a cabeça – as orelhas a baterem-lhe na cara com grande estardalhaço, como nos elefantes –, a dizer que não «não, não», a abanar tanto a cabeça que me pareceu à beira de se de-senroscar, à beira de sair disparada e cair nalguma das outras mesas do snack onde outros casais almoçavam a sua tosta-mista de sábado, a ronronar o pra-zer da ausência de espinhas, ossos, cascas, escamas, peles e caroços daquela refeição, sem crises, sem dúvidas – a luz da uma da tarde reluzindo na mantei-ga dos lábios de uns e de outros e todos eles acomodados numa felicidade habitual que dispensava a variação de qualquer azeitona. E porque ela não pa-rou de abanar a cabeça e temi que a perdesse e lhe fizesse falta mais tarde – coisas destas acabam sempre por fazer falta mais tarde – tentei segurar-lha: enxotou-me e gritou que não lhe tocasse – «tens as mãos cheias de manteiga» – e aproveitou o balanço para dizer que a minha vida era uma caderneta de cromos repetidos; chamou-me lesma e mosca morta, que todos os meus dias tendiam a ser cópias uns dos outros e que isso não só não me incomodava como era a minha maior ambição – torná-los definitivamente impermeáveis às surpresas – porque tudo o que era diferente me assustava, porque todas as imprevisibilidades me assustavam, que jamais ousaria sequer ir a um barbeiro diferente, a um dentista diferente, a um supermercado diferente, que jamais me atreveria a fazer um caminho diferente de casa para o emprego, do empre-go para casa e, resumindo, que tudo o que não fazia parte da minha limitada lista de hábitos me causava pânico, concluindo logo a seguir que «é melhor acabarmos a tosta antes que o pão esfrie e o queijo solidifique» e depois que era melhor acabarmos o namoro «antes que o respeito que ainda tenho por ti esturre e a minha paciência derreta»: ficou tão satisfeita com este jogo de pala-vras que por uma questão de estilo achou por bem não dizer mais nada – acrescentou apenas que tinha perdido o apetite, levantou-se e saiu do snack e da minha vida, deixando os meus lábios amanteigados a reluzir sozinhos à luz da uma da tarde.
Contei isto assim, como lhe estou a contar a si, senhor guarda, ao empre-gado do snack e ele respondeu-me que não tinha nada a ver com o assunto, que a dor de corno era minha e não dele; mandou-me parar de dar murros no balcão e de falar tão alto porque ainda lhe assustava a clientela: várias fiadas de mesas com casais comedores de tosta-mista debruçados nelas, reflectidos e multiplicados nos espelhos das paredes e do tecto que decoravam o snack, que ali vão há anos, todas as semanas do ano, no mesmo dia da semana e à mesma hora do dia, sem ânsias supérfluas por novidades e que ali ficam como bebés ancorados à paz do seu próprio cheiro numa fralda velha – «a tosta-mista que aqui fazemos é muito boa e não precisa da azeitona para nada». Conferiu pela quantidade de copos vazio à minha frente que eu já devia ter a lucidez a boiar em cerveja: ameaçou não me servir mais nenhuma e foi então que lhe apertei o pescoço.
Admito que devo ter apertado com muita força porque senti qualquer coisa a estalar debaixo dos meus dedos e não eram as minhas falanges. Mas compreenda, senhor guarda, que me achava perdido: uma tosta-mista comida no vazio desolador de um balcão de snack sem um interlocutor de lábios amanteigados onde a luz possa reluzir à minha vista, é um horror indiscritível, uma tragédia irrepresentável mesmo que os actores da companhia sejam tão maus que façam o público chorar logo à partida. E eu já sei que o empregado do snack teve alta, que as radiografias não acusaram nada de grave e que pode voltar ao trabalho já na próxima semana: se ele tiver a gentileza de retirar a queixa estou disposto a ir lá pedir-lhe desculpa e, humildemente, se ele deixar, se ele não se importar, se não lhe causar grande repúdio – mas compreendo se não deixar, se se importar, se o repudiar – sentar-me numa das suas fieis me-sas e retomar o meu hábito antigo: voltar a comer aquela tosta-mista tão apu-rada, feita da mesma maneira há décadas e que, como ele disse e muito bem (desculpe-me a comoção, senhor guarda, tem um lencinho de papel?), não precisa da merda da azeitona para nada.
António GregórioUma história de desamor treze vezes