And you can't smoke in any of this coffee places...I'm pretty sure coffee was invented by people who were smoking anyways. And they just wanted to invent something so they can stay up late and SMOKE FUCKIN' MORE! That's my theory. Just ask me or Columbo, he'll back me up on this one.» Denis Leary

Thursday, December 04, 2008

o "Progreso"

Mais do que um café, o "Progreso" era um antónimo. Meia dúzia de mesas de pé-de-galo de mármore desbeiçado, cadeiras centenárias, um chão de madeira que rangia debaixo dos pés, cortinas poeirentas e meias luz. Fausto, o velho encarregado, dormitava junto da porta da cozinha, de onde vinha um agradável aroma de café a ferver na caçoila: um gato esquálido e remeloso deslizava matreiramente para debaixo das mesas, à espreita de hipotéticos ratos. No Inverno, o local cheirava contantemente a Humidade e grandes manchas amarelavam o papel de parede. Neste ambiente, os clientes quase sempre conservavam as roupas de abafo, o que pressupunha uma manifesta censura à decrépita braseira de ferro que costumava avermelhar-se debilmente a um canto.


Arturo Pérez-Reverte


Photobucket
Maria João Sanches

Wednesday, December 03, 2008

café com cheirinho

O ar cheirava a café com cheirinho. Os jovens trabalhadores riam, falavam em voz alta, empurravam-se, fingiam que apertavam os colhões ou desafiavam-se a demonstrar quem é o melhor ponta: Carrasco ou Juanito. Os mais veteranos mexiam o açucar do café com cheiro com a lentidão dos conhecedores. A velocidade dos jovens parecia ficar aprisionada nas pupilas lentas dos velhos.


Manuel Vázquez Montalbán


Photobucket

Friday, November 14, 2008

café da baixa

eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata
(valiosa)
num café da baixa por ser incapaz coitados deles
de escrever os meus versos sem realizar de facto
neles, e à volta sua, a minha própria unidade
- fumar, quere-se dizer.

esta, que não é brilhante, é que ninguém esperava
ver num livro de versos. Pois é verdade. Denota
a minha essencial falta de higiene (não de tabaco)
e uma ausência de escrúpulo (não de dinheiro)
notável.

o Armando, que escreve à minha frente
o seu dele poema, fuma também,
Fumamos como perdidos escrevemos perdidamente
e nenhuma posição no mundo (me parece) é mais alta
mais espantosa e violenta incompatível e recon-
fortável
do que esta de nada dar pelo tabaco dos outros
(excepto coisas como vergonha, naturalmente,
e mortalhas)


(que se saiba) é esta a primeira vez
que um poeta escreve tão baixo (ao nível das priscas
dos outros)
aqui, e em parte mais nenhuma, é que cintila o tal
condicionalismo
de que há tanto se fala e se dispõe
discretamente (como quem as apanha).

sirva tudo de lição aos presentes e futuros
nas taménidas (várias) da poesia local
Antes andar por aí relativamente farto
antes para tabaco que para cesariny
(mário) de vasconcelos.



Mário Cesariny

Friday, October 31, 2008

“I have measured out my life with coffee spoons”


T.S.Eliot


Photobucket

Friday, October 24, 2008

OS CAFÉS

Nos cafés desenham os paisanos, vulgares
senhores de bagaço e genebra, raspando o mármore
entre as folhas do jornal. Morrem os cafés
com o seu bilhar, bengaleiro e escarrador. Música
de rádio ainda sintoniza a serradura e os vidros
baços quando chove. Recordo cafés
da província, ou da cidade grande,
destruídos por ímpias criaturas do plástico.
Já não servem cevada ou eduardinho e o açúcar
não vem no açucareiro. Alguns ainda assinam
os jornais, o cobre limpam e pagam
aos paquetes. Autorizam cauteleiros, a caixa
do engraxador, a rapariga das violetas. Violentam
os cafés aqueles da usura, ratos do cimento.
Avessos à militança, são os cafés retracto militante
de algumas senhoras de batina e capa, entornando
no pires o leite do caniche. Alvoraçados os velhos
titilam nas retretes e os tabacos esgotam-se em suspiro.
São cafés com espelhos e amarelas luzes onde o néon
ainda não entrou. Também de padres são feitas
essas lojas; de marçanos, rapazelhos e trapistas.
Devolvendo teorias sobre os ditos. Em tempo de ditadura
era o café a teia da intriga, o bocejar jacobino,
o guarda-chuva pingando tristes ais. Insisto pois
no rádio e radiador. Quem lembra os pianos?
Carambolas secas já cortavam o fumo dos charutos;
no marcador quinze de partido; na mesa ao fundo,
igual à história antiga, dois jogadores de xadrez ou de gamão.


Eduardo Guerra Carneiro

Thursday, October 09, 2008

Saul Leiter

Photobucket

cafés onde me aconteceram coisas esquisitas:

o Café de la Paix, por exemplo, junto à Ópera, onde um dia um estranho vizinho de mesa tentou convencer-me de que o meu físico assentaria bem num casaco igual ao que Yves Montand usava no seu último filme; o Café de flore, onde travei uma fugaz conversa com Roland Barthes, que me contou que, depois de 30 anos como cliente de bar, a empregada da caixa tinha-o visto na televisão e ficou a saber que era escritor e tinha-lhe pedido um livro com dedicatória e ele decidiu- uma vez que ela o tinha visto em algo tão visual como a televisão- oferecer-lhe O Império dos Signos, o seu único livro profusamente ilustrado; o Café Blaise, onde me fez efeito um LSD de uma potência notável e pouco faltou para não ser assassinado por uma namorada muito malvada; o Café Aux Deux Magots, onde sem mais nem menos o arquitecto Ricardo Bofill me disse não sei quantas vezes que era muito mais fácil dar nas vistas em Barcelona, mas muito mais difícil- “como o estou a conseguir precisamente agora”, repetia a todo o momento- triunfar em Paris; o Café La Closerie des Lilás, onde adquiri o hábito de me sentar na mesa noutro tempo habitual de Hemingway e sair sempre sem pagar; o Café Bonaparte, onde acompanhado de Marie-France (travesti tipo Marilyn Monroe que estava a rodar comigo Tam-tam, um filme underground de Adolf Arrieta) vi com grande assombro como um louco furioso entrava no estabelecimento com um martelo e escolhia ao acaso um dos clientes para lhe assentar uma contundente pancada no crânio que o deixou estendido e morto; o café que fica perto do cruzamento da rue du Bac com o boulevard Saint-Germain, onde Perec recomendava que nos sentássemos para observar a rua com um esmero um pouco sistemático e a anotar o que víssemos, o que nos chamasse a atenção, obrigando-nos a nós mesmos a escrever “inclusive o que aparentemente não tem interesse, o que é mais evidente, o mais comum, o mais opaco”.


Enrique Vila-Matas

Tuesday, September 23, 2008

Nighthawks

Ficou olhando o quadro de Edward Hopper ali na sua frente, Night life e descobriu pasmada que nunca esse quadro teve tanta significação como nessa noite. O limpo e banal café de esquina de uma rua vazia de Nova York, o café quase vazio (só três pessoas no balcão) com o empregado de uniforme branco-azulado lavando coisas debaixo da torneira, xícaras? A longa fila dos banquinhos vazios contornando o balcão, tudo visto do lado de fora, através da comprida vitrine de vidro. O silêncio sem moscas. O vidro sem poeira.


Lygia Fagundes Telles


E esse quadro estranhíssimo de um café noturno em alguma esquina de algum beco em Nova York. Havia vermelho mas nesse café até a cor vermelha era fria. A solidão medíocre.


Telles, Lygia Fagundes - As Horas Nuas

Wednesday, September 17, 2008

“La Apestosa” - José Luís Cuevas

Photobucket

Photobucket

Photobucket



I stay at the bar, alongside two other alone strangers. I see Nora and La Chihuahua and greet them in the distance. Eva comes down from the dark floor above, an elderly gentleman follows her. Nora sees her in the stairs and says – “You fucking Eva, did you do it two times? Eva jokes, and answers back “No, four”, she leaves her purse on a table and goes to the toilets, the gentleman washes his hands, she comes back and rinses her mouth (her oral caressing abilities are well known and have made Eva famous). Alcohol and sex, things around here can be summed up in those two words.

So what brings me here, to this small sanctuary of men and women over-enthusiastic about booze and lust? Why go to “La Apestosa” (the Smelly one) instead of any other place?

Blog Archive