And you can't smoke in any of this coffee places...I'm pretty sure coffee was invented by people who were smoking anyways. And they just wanted to invent something so they can stay up late and SMOKE FUCKIN' MORE! That's my theory. Just ask me or Columbo, he'll back me up on this one.» Denis Leary

Friday, January 30, 2009

O café começaria a encher por volta das 10 da noite

O café começaria a encher por volta das 10 da noite. A essa hora iniciar-se-ia o habitual desfile de rostos maquilhados, de poses inesperadas, de gritos e gargalhadas, de gestos e cumplicidades que só se cumprem durante a noite. Uma outra cidade se levantava assim que o dia se recolhia. Cidade de excessos e de abismos, de sangue e de música, de drogas e de sexo, de banalidades e de beleza e de ternura e de paixão.

Al Berto

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Anders Petersen - Café Lehmitz

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Tuesday, January 06, 2009

Como nasceu o vinho

Ao leitor desavisado pode parecer incrível aquilo que vou dizer, mas é a verdade mais pura: houve um tempo em que não havia uísque sobre a face da terra (nem de nenhum outro planeta, ao que se saiba). Nem uísque, nem qualquer bebida destilada, nem qualquer bebida alcoólica de qualquer natureza. Nem mesmo o vinho, fabricado na simples fermentação, pai, ou mãe, de todas as bebidas. Basta dizer que, nessa época inglória e tediosa da humanidade, os homens se reuniam nos bares (que um negociante mais hábil já abrira à espera de que alguém inventasse as bebidas) e bebiam água, a terrível água potável que os próprios compêndios definem como inodora, insossa e incolor. Evidentemente, os mais machões botavam dentro da água escorpiões, pimenta malagueta, e outras especiarias picantes e assim salvavam sua reputação diante da posteridade, chegando mesmo, alguns, a fingir um porre que só os séculos vindouros haveriam de trazer. Um dia, porém, sem que esse tivesse nada de extraordinário, um indivíduo chamado Álvaro saiu de uma aldeia em direção a outra, montado na sua mula de estimação, e, com essa viagem normal e rotineira, entrou para a história pela larga porta dos bares do mundo. Álvaro não era um homem fora do comum, era até meio idiota, mas acontece que a história é feita tanto pelo materialismo dialético quanto pelos acasos que a tecem e a regem. E o acaso era que Álvaro levava na sua bagagem alguns cachos de uva com que se entreter durante a viagem. E, como não gostava da casca nem dos caroços da uva, teve a idéia de gênio de espremer o caldo, apenas o caldo, dentro do cantil. Assim preparado, e daquela forma montado, lá se foi ele pelos caminhos de sempre, no troloc-troloc de todas as mulas. Quis, porém, o destino, que dormisse. E quis mais - que a mula perdesse o rumo. Foram sete dias de caminhadas por lugares ínvios e tropicalíssimos, o debilóide Álvaro nada tendo com que se alimentar a não ser o caldo de uvas que levava no cantil. Estranhamente, porém, a partir do terceiro dia, ele notou que o caldo que levava espumava, mudava de cor e gosto. E que, ao tomar o caldo, ele, Álvaro, se sentia de novo recomposto e pronto para viajar mais 24 horas. Tanto que, quando chegou a seu destino, depois de uma semana, ele declarou logo que, apesar de tudo, fizera a viagem mais maravilhosa de sua vida. Não fora, positivamente, uma bad-trip. Imediatamente, todo mundo quis experimentar a bebida de Álvaro, mas, como a bebida acabasse rapidamente, inúmeros candidatos a bêbedo começaram a percorrer o mesmo trajeto que ele, munidos de alforjes cheios de suco de uva, escondidos embaixo do traseiro quente. E logo a estrada se transformou na maior via turística da Espanha, e a Municipalidade, querendo aumentar a produção do milagroso líquido, transformou a estrada no labirinto mais sinuoso e complicado de toda a cristandade. Uma vez, porém, uma mula, teimosa como todas as de sua raça, resolveu empacar no meio da estrada, ficou uma semana em pleno sol sem se mover do lugar e o dono do animal descobriu, subitamente, um avanço na fabricação da bebida, concluindo que não era a caminhada que a produzia, mas a fermentação através dos raios solares. E aí se inventaram os alambiques. E aí se criaram os vinhos especiais, os álcoois em geral e as aguardentes em particular. E aí vieram as cervejas, as garrafas e as latas indestrutíveis e sem devolução. E aí foi inventada a poluição. Mas isso é outra história.

PS - Por que a bebida se chamou vinho? O homem se chamava Álvaro, como dissemos. Na intimidade, Alvinho. A homenagem foi apenas natural.

MORAL: O verdadeiro toque de gênio do primeiro bêbedo da história foi se lembrar de levar caldo de uva para se dessedentar. Se, por exemplo, tivesse levado leite, o mundo hoje teria que se contentar em se embriagar com coalhadas e ricotas.

Millôr Fernandes


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Sunday, December 28, 2008

ver passar

Sento-me num café e fico uma hora inteira a ver passar na rua as trinta mil pessoas da cidade. Convencidas, vencidas, alegres e tristes, inquietas, calmas, inseguras, deslizam como imagens num écran. Naquele momento, dir-se-ia que cada um concentra em si o destino do mundo. E, afinal, um segundo depois, não fica no seu caminho o mais leve sinal de tanta significação que parecia ter. Representou apenas um papel semelhante ao daqueles protagonistas de tragédias e comédias contadas num jornal que a criada amarrota, mete no fogão e queima.

Miguel Torga

Thursday, December 04, 2008

o "Progreso"

Mais do que um café, o "Progreso" era um antónimo. Meia dúzia de mesas de pé-de-galo de mármore desbeiçado, cadeiras centenárias, um chão de madeira que rangia debaixo dos pés, cortinas poeirentas e meias luz. Fausto, o velho encarregado, dormitava junto da porta da cozinha, de onde vinha um agradável aroma de café a ferver na caçoila: um gato esquálido e remeloso deslizava matreiramente para debaixo das mesas, à espreita de hipotéticos ratos. No Inverno, o local cheirava contantemente a Humidade e grandes manchas amarelavam o papel de parede. Neste ambiente, os clientes quase sempre conservavam as roupas de abafo, o que pressupunha uma manifesta censura à decrépita braseira de ferro que costumava avermelhar-se debilmente a um canto.


Arturo Pérez-Reverte


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Maria João Sanches

Wednesday, December 03, 2008

café com cheirinho

O ar cheirava a café com cheirinho. Os jovens trabalhadores riam, falavam em voz alta, empurravam-se, fingiam que apertavam os colhões ou desafiavam-se a demonstrar quem é o melhor ponta: Carrasco ou Juanito. Os mais veteranos mexiam o açucar do café com cheiro com a lentidão dos conhecedores. A velocidade dos jovens parecia ficar aprisionada nas pupilas lentas dos velhos.


Manuel Vázquez Montalbán


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Friday, November 14, 2008

café da baixa

eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata
(valiosa)
num café da baixa por ser incapaz coitados deles
de escrever os meus versos sem realizar de facto
neles, e à volta sua, a minha própria unidade
- fumar, quere-se dizer.

esta, que não é brilhante, é que ninguém esperava
ver num livro de versos. Pois é verdade. Denota
a minha essencial falta de higiene (não de tabaco)
e uma ausência de escrúpulo (não de dinheiro)
notável.

o Armando, que escreve à minha frente
o seu dele poema, fuma também,
Fumamos como perdidos escrevemos perdidamente
e nenhuma posição no mundo (me parece) é mais alta
mais espantosa e violenta incompatível e recon-
fortável
do que esta de nada dar pelo tabaco dos outros
(excepto coisas como vergonha, naturalmente,
e mortalhas)


(que se saiba) é esta a primeira vez
que um poeta escreve tão baixo (ao nível das priscas
dos outros)
aqui, e em parte mais nenhuma, é que cintila o tal
condicionalismo
de que há tanto se fala e se dispõe
discretamente (como quem as apanha).

sirva tudo de lição aos presentes e futuros
nas taménidas (várias) da poesia local
Antes andar por aí relativamente farto
antes para tabaco que para cesariny
(mário) de vasconcelos.



Mário Cesariny

Friday, October 31, 2008

“I have measured out my life with coffee spoons”


T.S.Eliot


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Friday, October 24, 2008

OS CAFÉS

Nos cafés desenham os paisanos, vulgares
senhores de bagaço e genebra, raspando o mármore
entre as folhas do jornal. Morrem os cafés
com o seu bilhar, bengaleiro e escarrador. Música
de rádio ainda sintoniza a serradura e os vidros
baços quando chove. Recordo cafés
da província, ou da cidade grande,
destruídos por ímpias criaturas do plástico.
Já não servem cevada ou eduardinho e o açúcar
não vem no açucareiro. Alguns ainda assinam
os jornais, o cobre limpam e pagam
aos paquetes. Autorizam cauteleiros, a caixa
do engraxador, a rapariga das violetas. Violentam
os cafés aqueles da usura, ratos do cimento.
Avessos à militança, são os cafés retracto militante
de algumas senhoras de batina e capa, entornando
no pires o leite do caniche. Alvoraçados os velhos
titilam nas retretes e os tabacos esgotam-se em suspiro.
São cafés com espelhos e amarelas luzes onde o néon
ainda não entrou. Também de padres são feitas
essas lojas; de marçanos, rapazelhos e trapistas.
Devolvendo teorias sobre os ditos. Em tempo de ditadura
era o café a teia da intriga, o bocejar jacobino,
o guarda-chuva pingando tristes ais. Insisto pois
no rádio e radiador. Quem lembra os pianos?
Carambolas secas já cortavam o fumo dos charutos;
no marcador quinze de partido; na mesa ao fundo,
igual à história antiga, dois jogadores de xadrez ou de gamão.


Eduardo Guerra Carneiro

Thursday, October 09, 2008

Saul Leiter

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cafés onde me aconteceram coisas esquisitas:

o Café de la Paix, por exemplo, junto à Ópera, onde um dia um estranho vizinho de mesa tentou convencer-me de que o meu físico assentaria bem num casaco igual ao que Yves Montand usava no seu último filme; o Café de flore, onde travei uma fugaz conversa com Roland Barthes, que me contou que, depois de 30 anos como cliente de bar, a empregada da caixa tinha-o visto na televisão e ficou a saber que era escritor e tinha-lhe pedido um livro com dedicatória e ele decidiu- uma vez que ela o tinha visto em algo tão visual como a televisão- oferecer-lhe O Império dos Signos, o seu único livro profusamente ilustrado; o Café Blaise, onde me fez efeito um LSD de uma potência notável e pouco faltou para não ser assassinado por uma namorada muito malvada; o Café Aux Deux Magots, onde sem mais nem menos o arquitecto Ricardo Bofill me disse não sei quantas vezes que era muito mais fácil dar nas vistas em Barcelona, mas muito mais difícil- “como o estou a conseguir precisamente agora”, repetia a todo o momento- triunfar em Paris; o Café La Closerie des Lilás, onde adquiri o hábito de me sentar na mesa noutro tempo habitual de Hemingway e sair sempre sem pagar; o Café Bonaparte, onde acompanhado de Marie-France (travesti tipo Marilyn Monroe que estava a rodar comigo Tam-tam, um filme underground de Adolf Arrieta) vi com grande assombro como um louco furioso entrava no estabelecimento com um martelo e escolhia ao acaso um dos clientes para lhe assentar uma contundente pancada no crânio que o deixou estendido e morto; o café que fica perto do cruzamento da rue du Bac com o boulevard Saint-Germain, onde Perec recomendava que nos sentássemos para observar a rua com um esmero um pouco sistemático e a anotar o que víssemos, o que nos chamasse a atenção, obrigando-nos a nós mesmos a escrever “inclusive o que aparentemente não tem interesse, o que é mais evidente, o mais comum, o mais opaco”.


Enrique Vila-Matas

Tuesday, September 23, 2008

Nighthawks

Ficou olhando o quadro de Edward Hopper ali na sua frente, Night life e descobriu pasmada que nunca esse quadro teve tanta significação como nessa noite. O limpo e banal café de esquina de uma rua vazia de Nova York, o café quase vazio (só três pessoas no balcão) com o empregado de uniforme branco-azulado lavando coisas debaixo da torneira, xícaras? A longa fila dos banquinhos vazios contornando o balcão, tudo visto do lado de fora, através da comprida vitrine de vidro. O silêncio sem moscas. O vidro sem poeira.


Lygia Fagundes Telles


E esse quadro estranhíssimo de um café noturno em alguma esquina de algum beco em Nova York. Havia vermelho mas nesse café até a cor vermelha era fria. A solidão medíocre.


Telles, Lygia Fagundes - As Horas Nuas

Wednesday, September 17, 2008

“La Apestosa” - José Luís Cuevas

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I stay at the bar, alongside two other alone strangers. I see Nora and La Chihuahua and greet them in the distance. Eva comes down from the dark floor above, an elderly gentleman follows her. Nora sees her in the stairs and says – “You fucking Eva, did you do it two times? Eva jokes, and answers back “No, four”, she leaves her purse on a table and goes to the toilets, the gentleman washes his hands, she comes back and rinses her mouth (her oral caressing abilities are well known and have made Eva famous). Alcohol and sex, things around here can be summed up in those two words.

So what brings me here, to this small sanctuary of men and women over-enthusiastic about booze and lust? Why go to “La Apestosa” (the Smelly one) instead of any other place?

Tuesday, September 02, 2008

Uma bica bem cheia

O homem fixara o olhar nos lavabos do café. E conseguia ver.
Na entrada da porta masculina, nítida, e a preto e branco, uma cabeça coberta de chapéu à d’Artagnan, com bigode e pêra. Não vivera ele em tempo algum, o século desses homens de farta cabeleira, chapeirão de foles e pluma alçada, bigode descaído sobre o pelame em bico que descia do queixo. Mas o homem sabia: D’Artagnan, o grande sedutor.
Na porta ao lado, o recato das damas era sinalizado num perfil de caracóis enfunados, os lábios gordos e de perversas formas, feitos para ciciar à beira da carne e da cama. Exemplar de cabeça que deixa marca no lençol, carne em ombros de cobre claro e deixa marca nos dedos de quem os apalpa: Antonietas.
Ele olhava as portas dos lavabos e remexia, sem baixar a vista, os dois pacotes de açúcar na chaveninha branca com o preto do café a transbordar para o pires. Uma bica bem cheia, foi sempre o seu pedido.
Seriam, e ele que tão pouco tempo demorou na vida a contar o tempo, umas duas e pouco de uma tarde de outono.
Três domésticas, eram o seu pano de fundo.
Crocheteavam numa dobadoira da língua, e olhavam-no num tiro incerto de mistério que lhe chegava ao peito como uma medalha póstuma.
Açúcar, muito açúcar. Dois refinados pacotes para os amargos de boca dos seus noventa anos.


Armando Silva Carvalho

Friday, May 30, 2008

É O QUE É, É O CAFÉ!

Bem sei que muito estratego tem ganho batalhas à mesa do Café, que um número inacreditável de políticos corta e dá à mesa do Café, que ambiciosos projectos literários, plásticos, cinematográficos se têm arquitectado (e gorado) à mesa do Café, mas…… Eu gosto da Mesa do Café! Salazar não gostava, dizia que o penalizava ver a mocidade queimar o tempo no Café em vez de ir para os Estádios («Ó Mocidade, vai para os Estádios!», não incitava o poeta?) e o seu azar ao café chegava a tal ponto que, quando anulou a semana inglesa de certos sectores da Previdência já, nessa altura (há trinta anos), beneficiavam, declarou que era melhor trabalhar ao sábado de tarde do que ir para os Cafés conspirar. Ele lá sabia…Curiosamente, gente progressista também ataca o lugar-comum que é o Café. Porque se dará desse pacato ponto de encontro só uma imagem negativa? Quando se quer significar que um revolucionário não é revolucionário, diz-se que é «… de Café». Com os poetas, os pintores, os cineastas, a mesma coisa. Eu penso que há nisto uma grande incompreensão e uma absurda exigência. O Café é o Café e não pode ser mais do que o Café. Não é universidade, academiaclube, quartel-general, sede partidária, campo de trabalho, areópago. É o Café, é o que é! Precursor das mesas redondas (não das monologas somadas uns aos outros), inventor das tertúlias em que velhos e novos, consagrados e desconhecidos convivem democraticamente em torno da democrática bica, o Café viu nascer, a par de muitos faznadões (e o que é, em termos de civilização, um faznadão?), gente que se avantajou nas Artes, nas Letras, na Politica, etc. Quem não recorda os Cafés que, por esse mundo, foram xícara para tantas mexidelas nas referidas Artes, nas supracitadas Letras, ma mencionada Politica? Ora, ora, inimigos do Café! Olhem que ele não esteriliza mais do que qualquer outro lugar de paleio e convívio onde o espelhismo, como é de regra, também faz a sua aparição. E reparem que, no Café, o repentismo crítico, com toda a sua verve, com toda a sua falta de respeito, está sempre à espreita de espelhos para estilhaçar…Ao Café, pois, e que saiam duas bicas («com laços, Snr. Pina!») para a mesa do canto, que é a dos sisudos!


P.S. – Ah, é verdade! Entre dois cafés, trabalhem…



Alexandre O’Neill,





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