And you can't smoke in any of this coffee places...I'm pretty sure coffee was invented by people who were smoking anyways. And they just wanted to invent something so they can stay up late and SMOKE FUCKIN' MORE! That's my theory. Just ask me or Columbo, he'll back me up on this one.» Denis Leary

Thursday, November 12, 2009

«IN OUR TIME»

- Um café, se faz favor - disse a jovem mulher.
- E para o senhor? - perguntou a empregada.
- Deixe-me ver - disse o homem. Olhou bem para a empregada, que lhe sorriu docemente, de um modo quase infantil.
- Não se importa que eu peça uma coisa diferente?
- Claro que não, diga à vontade. Embora nós aqui fora não tenhamos grande escolha.
- Eu também não estou a pensar em nenhuma iguaria.
- Oiça lá - inclinou-se a jovem mulher para ele. - Se mais uma vez não consegue comportar-se, vou-me embora.
De duas em duas, ou de três em três semanas, iam tomar café, sempre no mesmo pequeno bar de Buda, perto da estação de eléctrico, por baixo dos castanheiros.
- Olhe Alizka, você pediu café. Deixe que eu também mande vir o que me apetece.
Virou-se para a empregada.
- O meu problema é que não me lembro, de repente, do nome daquilo que queria pedir.É assim um líquido escuro.
- É uma bebida alcoólica?
-Não, não. Se me lembro bem, trouxeram-mo num copo de vidro. E também me lembro que estava quase a ferver. Portanto, não era uma bebida alcoólica.
- Receio que não a tenhamos.
- Nem posso acreditar - disse o homem. - Não será possível perguntar à sua camarada gerente?
- Sim, com certeza. Mas digo-lhe já que eu trabalho aqui há cinco anos - disse a menina, que foi lá dentro à pressa.
- Estou a ficar farta do seu comportamento - disse a jovem mulher irritada. Ela não gostava de dar nas vistas. No autocarro virava-se sempre para a janela. Nem sequer tinha coragem para trocar um par de sapatos se estes lhe apertassem os pés. - Se não acaba com isso, vou para casa.
- Ainda nem sequer me contou da Jugoslávia.
- Nesta disposição nem consigo falar-lhe nisso.
A empregada aproximou-se sorrindo.
- A camarada gerente pergunta se a bebida não era castanho-
-clara.
- Não, senhora. Era quase preta.
- E onde foi que a tomou pela última vez?
- No Gerbeaud.
- Já receávamos! - riu-se a empregada. - Pois, então, a Gerbeaud é uma pastelaria de luxo, de primeira classe. Mas nós, como o senhor vê na placa, somos uma pastelaria de segunda classe.
- Espere aí! - disse o homem. - Agora estou a lembrar-me que com aquilo também me deram uma colher pequena. E mais uma coisa. No pires, uns pequenos cubos brancos.
- Cubos? - olhou a empregada para ele. E depois desatou-se a rir. - Há cinco anos que estou cá, mas nunca houve um pedido assim. Cubos! - riu-se novamente.
- Não se poderia perguntar à camarada gerente?
A empregada foi, mas à porta olhou para trás, pôs a mão na boca e riu-se.
- Só fica contente quando as pessoas se ocupam de si? - perguntou a jovem mulher furiosa.
- Nem pensar, Alizka. Nem assim fico contente. Bom, mas como é o tal Bled?
- Não finja que está interessado pelo Bled. Era melhor dar-se conta do que está a fazer.
A empregada voltou. Atrás dela vinha a gerente: caveirosa, de óculos, com um livro de Hemingway pouco conhecido na mão, intitulado In our time.
- Estou a ver o problema - disse ela, com delicadeza.
- Mas, por favor, não faça caso do assunto - disse o homem.
- Nós gostamos de satisfazer os nossos velhos clientes. De que tipo eram aqueles cubos?
- Se bem me lembro, eram brancos. E de tamanho bastante pequeno.
Estas entreolharam-se. A jovem empregada, que agora não se atreveu a rir, só casquinou baixinho. A gerente, por seu lado, continuava séria.
- É muito aborrecido, mas o que posso fazer? Não temos cubos de nenhum tipo.
- Não é assim tão importante - disse o homem.
- E também não conheço o líquido de que se trata.
- Deixe lá - o homem fez um gesto de desistir com a mão.
- Traga-me também um café.

István Örkény


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Wednesday, October 28, 2009

Não, penso, o mundo que eu queria que recomeçasse a existir em torno
a mim e a Franziska não pode ser o vosso; queria concentrar-me para
pensar um lugar em todos os seu pormenores, um ambiente onde gos-
tasse de me encontrar com Franziska neste momento, por exemplo um
café cheio de espelhos em que se reflictam lustres de cristal e uma or-
questra toque valsas e os acordes dos violinos venham serpentear por
cima das mesinhas de mármore e as chávenas fumeguem e haja pastéis
de nata. Enquanto lá fora, do outro lado dos vidros embaciados, o mundo
cheio de pessoas e de coisas faria sentir a sua presença: a presença do
mundo amigo e hostil, as coisas com que nos alegramos ou contra as
quais nos batemos... penso-o com todas as minhas forças mas já sei que
elas não bastam para fazê-lo existir: o nada é mais forte e ocupou toda
a terra.

Italo Calvino, in "Se numa Noite de Inverno um Viajante"

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Friday, October 23, 2009

I thought I

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saw Liz Taylor, Bob Mitchum in the Backroom of the Commercial South Bank, 1984
Graham Smith

POR VOLTA DOS ANOS 70

A malta pedia a Deus um salão de bilhar e andava à pancada todas as sextas-feiras à noite mesmo no meio da estrada, impedindo o tráfego. Sem facas, armas de fogo ou correntes. Só ao murro. Ninguém estava ali para levar aquilo a sério. Não era como os combates de rua nas grandes cidades. Os bailes em Diligent River atraíam sempre imensa gente e, como nos velhos tempos do El Monte Legion Stadium, por dá cá aquela palha rebentavam violentas brigas entre vilórias rivais. O grande culpado disto tudo era o tédio. Nem empregos nem salões de bilhar, dez gajos para uma miúda que, regra geral, era um coiro, péssimas estações de rádio, só velhos a morrer e bêbados, festas de caridade, um baile por mês onde nem sequer se dançava rock, uma máquina de discos que nunca mudava de repertório, invernos cobertos de neve em que fazia um frio de rachar e verões encobertos. A coisa mais empolgante que podia acontecer era alguém matar um alce ou um urso, mas até isso era muito raro. Foi então que chegaram os americanos. Primeiro a conta-gotas e, depois, uma autêntica enxurrada. Desertores, criminosos, tipos fugidos das cidades que cresciam por toda a parte. Estranhas publicações pornográficas começaram a circular pelas aldeias. Páginas inteiras, às cores, cobertas de pichas e conas, mamas e cus. O cheiro a drogas impregnou a atmosfera como uma brisa marítima. A música de rock and roll vibrou baixinho e acabou por explodir estrondosamente do lado das florestas, abafando o ruído das serras mecânicas. Surgiram cabanas de índios e esquisitas construções em cúpula de cores berrantes. Estandartes com longas fitas esvoaçavam nos campos para grande espanto dos corvos. Monstruosas motas pretas todas cromadas chafurdaram nas picadas. Estampidos de choppers e hogs rugindo através das aldeias de pescadores. Cartazes dos Rolling Stones colocados nas paredes dos celeiros e das igrejas. Raparigas da terra tatuadas em sítios que nunca nos teriam passado pela cabeça. A Polícia Montada foi alertada, mas as coisas já iam demasiado longe. Já não se conseguia distinguir a rapaziada canadiana da americana. Toda a gente a foder e a chupar, a fumar charros, a chutar e a dançar. E, muito ao longe, podia-se ouvir o barulho da América a rachar e a despenhar-se no mar.


Sam Shepard


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clientes habituais

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Sento-me no café

Sento-me no café com o meu caderno de apontamentos e as ideias a girar. Está imenso frio e com o piloto automático ligado, abano o pequeno pacote que retiro do pires e o açúcar salta para cima de mim e gira à minha volta. Um casal de pé ao balcão farta-se de rir da minha figura a sacudir o açúcar por todo o lado. Deve andar por aí um anjo que me fura os pacotes porque me quer ver elegante e bonita.

Maria João Lopes Fernandes

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Monday, October 19, 2009

Uma vigília para Sam, BBC TV

Conheci Samuel Beckett em 1961 em Paris quando a minha peça,
O Encarregado, estava a ser montada. Entrou no hotel a andar
realmente muito depressa. Tinha uma passada viva e um aperto
de mão rápido. Foi extremamente amigável. Já conhecia a sua obra
há muitos anos, claro, mas isso nunca me levou a pensar que guiasse
tão depressa. Conduziu o seu pequeno Citroën de bar em bar durante
a noite toda, realmente muito depressa. Acabámos por ficar num sítio
em Les Halles a comer sopa de cebola às 4 da manhã e eu estava por
essa altura de rastos - devido, suponho, ao álcool, ao tabaco e à exci-
tação - com indigestão e azia, portanto pus a cabeça em cima da mesa.
Quando ergui os olhos tinha-se ido embora. Não fazia ideia de para
onde é que ele tinha ido e pensei: «Talvez tudo tenha sido um sonho.»
Acho que adormeci em cima da mesa e cerca de quarenta e cinco
minutos mais tarde a mesa estremeceu e lá estava ele e tinha um
pacote na mão, um saco. E disse: «Andei por Paris inteira à procura
disto. Finalmente encontrei.» E abriu o saco e deu-me uma lata de
bicarbonato de sódio, que realmente fez maravilhas.

Harold Pinter

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Thursday, October 08, 2009

Comprava o jornal e, com um pequeno suspiro de alívio, sentava-se a lê-lo no café, em geral na mesa junto à vitrine, de onde podia ver quem passava na rua. Na altura de pagar trocava sempre com o empregado algumas impressões sobre as notícias. Pelo menos sobre futebol, desastres de viação, aumento da criminalidade, ou sobre as guerras que havia no mundo. Entendiam-se bem sobre o futebol, porque eram do mesmo clube, e quanto aos desastres, à criminalidade e às guerras, era consolador verificar que não tinham absolutamente nada a ver com eles. Partilhavam, portanto, opiniões e sentimentos, verificava com prazer. Batia-lhe no ombro, ao ir-se embora, e deixava de boa vontade uma gorjeta.

Teolinda Gersão


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